Amor, Pé na Bunda, Clichês e Outras Drogas

Aparentemente está tudo bem. De repente, o mundo se abre sob teus pés. A pessoa rompe, inesperadamente, e te deixa perdido, “com cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança”. Às vezes, nem é tão inesperadamente assim: você está percebendo que algo está errado, vocês já conversaram a respeito – ou nem conversaram porque a pessoa “é mais fechada que uma ostra” -, e você espera que tudo se ajuste, tudo se encaixe. Ao invés disso, pé na bunda. É, camarada, “a vida é assim mesmo”, mas relaxe! “Um pé na bunda serve para alguma coisa: pelo menos te chuta prá frente”. Mas… quanto tempo leva até que você se cure desse trauma?

Primeiro vem a fossa. A estadia por lá depende de cada um. Tive relacionamento em que a fossa, aquela devastadora, dolorida mesmo, abaixo do nível da fossa, durou uma semana. Nem comer eu conseguia. Fiquei um trapo, espantalho era elogio. Aos poucos os choros diminuíram, a ausência da pessoa passou a ser menos dolorosa. Mas não foi fácil; era meu primeiro relacionamento sério, éramos noivos, essa coisa toda. Ficamos separados por dois meses, voltamos, ficamos mais um tempo, mas “não era prá ser”.

Tem gente que fica na fossa por meses a fio. Se recusa a receber ajuda, palavra de conforto, ombro amigo, não quer nem sair de casa. Há também aqueles que preferem a fossa regada a álcool. “Sofrer, só se for com Vodka.” É tudo forma de dizer: “me deixa na minha”. Ok, estamos aguardando, e insistindo no contato porque “só insistimos naquilo que vale a pena”.

Aí sai da fossa… com uma fooooome! Quer sair por aí comendo todo mundo. É a fase do “foda-se”. Sabe como é? “Me dediquei tanto a esta pessoa filha duma puta e mereço pé na bunda como recompensa. Quer saber? FODA-SE!” Pois prá tudo existe o foda-se. Geralmente essa fase é mais longa que a fossa. É o renascer da Fênix, a pessoa precisa voltar a se afirmar, muito mais para si mesma do que para as pessoas ao seu redor. Amor próprio? Longe disso, camarada, o começo desta fase é apenas uma extensão da fossa. Despeito, ego ferido… Demora um pouco para a pessoa voltar a se enxergar de verdade. No começo ela tende a ser apenas um fruto de tudo o que lhe aconteceu.

Aí, sim, as ideias voltam a se ordenar. Aos poucos ela se redescobre, percebe do que gosta de verdade – e não porque aprendeu ao lado “de um certo alguém”. Passado o ego ferido, volta a se abrir para conhecer novas pessoas – conhecê-las de verdade, e não apenas ao seus corpos – e, quem sabe, encontrar um novo amor. Para algumas pessoas, é fato, ha um longo intervalo entre uma fase e outra. Não porque o trauma ainda impera, e sim porque a pessoa aprendeu a apreciar tanto a própria companhia que uma outra pessoa poderia atrapalhar este momento tão único, tão seu.

E então, naquele momento, sem menos esperar, um novo alguém pode aparecer, um novo amor pode surgir… para, quem sabe, enfiar o pé na jaca de novo, dessa vez não tão inocente, um pouco mais maduro – e ser um tanto mais feliz “para sempre enquanto durar”.

5 pensamentos sobre “Amor, Pé na Bunda, Clichês e Outras Drogas

  1. Li minha vida descrita nesse conto, nessa verdade. Duvido não existir uma mulher que não tenha passado por isso. Levantei, sacudi a poeira e segui em frente durante 16 anos da minha vida (dos 14 aos 30) até que o Amor chegou, na hora certa, a pessoa certa, e eu agora, madura já o suficiente para estar levando um relacionamento por 1 ano e 8 meses. Vamos casar, sim. Acho que chegou a hora. Mas mesmo amando e sendo amada intensamente, tenho medo. Medo desse fantasma (pé na bunda) que acho que sempre vai me assombrar. Amei, lindona !

  2. Nossa! Sensacional! Também descreveu demais uma fase da minha vida! Só não chegou a fase de encontrar outra pessoa, que mude tudo! Mas vamos lá…a vida continua, já superei taaaantas coisas! tudo passa o tempo todo! Adoreiii suas palavras!

  3. Texto em tom de desabafo que serve sim para muita gente. Mas uma coisa eu lhe digo do alto dos meus 40 anos: Dê tempo ao tempo. Só o tempo pode “amenizar” qualquer tipo de fossa. Por que se for mesmo intenso, o tempo ameniza, mas não cura. De qualquer modo, é essencial se apegar a coisas que você gosta para fugir dos fantasmas: música, cinema, amigos… Se você optar por curtir um “isolamento”, será pior. Pois os temerosos “5 minutos” virão e é complicado se livrar -bem- deles. Pode-se chamar isso de amor. Mas amor é tão sinônimo de sofrimento assim? Não, não deve ser amor. Porém, como é irremediável, fica a dica: a ÚNICA maneira de se libertar é dando tempo ao tempo. Acreditar nisso. E não ceder à músicas, datas, lembranças e aos “5 minutos” de aflição. Belo texto, Pi. Um beijo bem carinhoso.

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