Nada do que se esperava

Caro leitor:

Por ser um texto longo, foi dividido em 2 etapas. Talvez não seja “do jeito que se esperava”, mas farei do apelo da minha personagem as minhas palavras. Leia o texto e apareça novamente.

Bjss da Pimentinha

***

Ela vinha passando por dias tensos, tardes corridas, noites de produção.
Trabalhava, estudava, dormia. Em breves intervalos, comia algo. Seu único luxo era tomar banhos longos e quentes, com seus sabonetes preferidos e hidratantes por todo o corpo, que a faziam relaxar e a conduziam rapidamente a um estado de sono profundo.
Ele sentia saudades dela. Nas últimas semanas, pouco se viam. Era mais fácil falar ao telefone,durante o dia, ao som de seus escritórios que misturavam conversas, risadas, Alpha FM de fundo, cheiro de café e mãos que seguravam os queixos. E, à noite, deitados na cama – cada um, sobre a sua -, para desejar um “boa noite” quase embalado por Morpheu.
Eles não tinham nada formal. Nenhuma proposta. Nenhum “quer?” e nenhum “sim”. Isso já fazia quase um ano. Ela pediu assim. Sabendo que não se dedicaria corretamente àquele cara gente boa, pediu que não houvesse compromisso para que não surgissem cobranças. Ela sabia dos riscos que corria, já que ambos estavam livres e poderiam conhecer alguém mais acessível nesta jornada louca. Ele até saía com outras garotas, mas nada era igual a estar com ela. Com ela era tudo muito bom – e ele sempre dizia: “Não é só o sexo que é bom. Vocês não têm capacidade intelectual de entender o que acontece entre a gente”. E as últimas semanas estavam de matar. Sentiam saudades de sentar em frente à TV, assistir comédia pastelão, fazer nada, juntos. Era uma bobeirinha, um quase nada, uma rotina chata para quem pudesse ver de fora. De dentro daquele pseudo-relacionamento, aquelas bobeirinhas se tornavam pedras preciosas.
Era uma Quinta-Feira, dessas que não se espera nada de diferente. Ele
planejou pela manhã que apareceria, à noite, de surpresa. Conhecia os
horários dela, queria mexer em seus cabelos, sempre cheirosos, dar um
daquele beijos que os acendia rapidamente, ficar nu, trepar na sala.
Chegou de mansinho, aquela velha mania de entrar sem se anunciar ao
interfone – sabe como é, amigo do porteiro, entra e fala do último jogo de futebol… coisas de homem. A porta dela não estava trancada, entrou e a viu deitada no sofá, assistindo um besteirol qualquer na TV, quase cochilando, pijama de flanela, pantufas, cobertor felpudo. “Que merda”, ele pensou. “Por que vim sem ligar?”
Ela viu o olhar dele, calado. Não teve o que comentar. Esboçou um “oi”
tímido, sem graça. O conhecia, seu olhar, aquele semblante. Percebeu que ele tinha planejado algo, e vê-la daquele jeito – praticamente um
ursinha-carinhosa de pelúcia – tinha sido um balde de água trincando de gelada sobre a cabeça dele. “Vem aqui, gatinho”, foi tudo o que ela
conseguiu dizer.
Ele sentou no sofá, colocou a cabeça dela sobre suas pernas. Mexia em seus cabelos enquanto falavam da vida, olhos nos olhos, uma evidente compaixão misturada à decepção criada pela própria expectativa. É claro que ela não iria ajudar a realizar seus planos. Nem seria humano pensar nisso, vendo aquela ursa colorida sobre o sofá.
Ela foi pegando no sono, começou a respirar mais forte… dormiu. Ele só a ajeitou sobre o sofá e ia embora. Ela percebeu o movimento, o chamou baixinho. Pediu para ele voltar rapidinho que ela precisava falar algo. Foi sussurrando no ouvido dele, e dando uma breve lambida, que ela disse: “Volta amanhã?”

2 pensamentos sobre “Nada do que se esperava

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