Devaneios

Ela chegou tarde em casa naquela noite de Sexta chuvosa. Ficou trabalhando num relatório complicado, que seu gerente precisaria na manhã de Segunda-Feira para uma reunião com a diretoria. Era uma workaholic moderada, preferia sempre esticar o expediente tanto quanto fosse necessário a passar o final de semana trabalhando. Ali mesmo, no escritório, comeu qualquer besteirinha. No carro, voltando para seu palácio (como apelidara seu pequeno apê de 41m² localizado no Jaguaré), Iron Maiden rolava bem alto, e ela fazia dueto com Bruce Dickinson em Run to the Hills e Wasted Years para se manter acordada.



Estacionava há um quarteirão do prédio e esqueceu o guarda-chuva – ultimamente mal se lembrava de que precisava de um. Chegou, obviamente, toda molhada em seu palácio. Subiu de elevador, 3o. andar, apê 33. “Finalmente, banho e vinho”, era tudo em que conseguia pensar. Fez carinho no gato, acendeu um incenso de jasmim, mudou a vibe, e colocou as baladinhas mais góticas do The Cure.

Banhou-se demoradamente, pensando na semana que tinha sido corrida e que, louvadíssimo seja Deus, a impossibilitou de pensar em seus piores problemas, em suas piores dores, em tudo o que vinha fazendo ela sofrer como nunca em outros tempos. Ao sair do banho, colocou apenas uma roupa preta, voltou para a sala, acendeu as velas que sempre estiveram estrategicamente localizadas, serviu-se do seu vinho preferido e colocou uma seleção de Depeche Mode. Em pouco tempo, cochilou no sofá.

A campanhia tocou e rapidamente o coração disparou. Pelo horário, só poderia ser ele. Abriu a porta e imediatamente pulou em  seu colo, agarrada ao seu pescoço, trocando beijos de saudades. Eles não precisavam de muita conversa no contato de “oi”, era sempre tudo muito quente. Rapidamente eles estavam se agarrando pelo corredor, caminhando em direção à sala, sentando no sofá e se despindo. Ele sempre olhava nos olhos dela, como quem pedisse aprovação para deixá-la nua, ela piscava forte, para dizer “sim, é claro, faça agora”.

De repente, a música preferida deles, Personal Jesus. Os dois estavam apenas de calça, ela já sem sutiã. Começaram a dançar juntos e o clima esquentou ainda mais. Ele beijou aquela parte despida e a deixou nua por inteiro, beijando-a com seu jeito delicadamente selvagem. Ela ficou molhada – desta vez, por si – e eles transaram ali, na sala mesmo, em cima do pequeno sofá preto que sempre os ajudava a tirar as melhores posições da transa e que os fazia alcançar o gozo, rapidinho. E isso não era ruim, não, sempre havia mais de um round.

E então ela acordou. Ela só o via em sonhos. Ela preparava o clima que sempre o trazia de volta para o seu palácio. O rapaz havia morrido, um mês antes, num acidente de trânsito, dias antes de se casarem. Ela sabia que precisava se livrar daquela dor, mas ainda não era a hora de pensar no como, de pensar no quando. Só sabia que queria sonhar com ele, todas as noites.

6 pensamentos sobre “Devaneios

  1. As coisas acontecem sem que a gente entenda…
    Bom demais pra ser verdade? Não creio, os momentos que ela viveu com ele foram inesquecíveis, e isso ninguém tira dela…
    Tantas pessoas passam pela vida sem sentir algo assim… E ela foi privilegiada.

    Adorei o texto!!! Realmente é triste, mas faz lembrar que a gente tem que viver cada momento como se fosse o último…

    Lindo pimenta, adorei!

  2. A morte é só uma forma de perder alguém. Todos os dias, se não nos fizermos vigilantes, perdemos um pouco as pessoas que amamos. E quando elas finalmente se vão, só herdamos mesmo as lembranças. Resta saber se herdaremos também a culpa ou se teremos feito tudo para que aqueles momentos se perpetuassem “para sempre”. Muito bonito esse conto. Adorei. Fez-me lembrar um pouco da primeira temporada de Fringe, não sei por quê.

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