Cheia de zêlo

Não havia muito tempo, meu marido, meu pequeno filho e eu nos mudamos para aquela casa enorme na Moóca. A construção era antiga e os cômodos pareciam ter o dobro do tamanho de uma casa que se pode considerar espaçosa nos Jardins. Nos mudamos para lá assim que decidimos que eu iria parar de tomar a pílula e dar um irmãozinho para o Jonas.

O problema de todo aquele espaço é que eu me sentia ainda mais sozinha quando o Pedro saía para trabalhar. Ok, eu tinha a Dita todos os dias, fazendo aqueles maravilhosos pratos que enchiam os olhos e a boca de água de qualquer ser na face desta Terra. O problema é que, não bastassem os planos de uma gravidez, eu estava encerrando a faculdade e, por isso, meu marido sugeriu que eu deixasse o meu trabalho, que não tinha a ver com a minha área de estudo, para me dedicar ao encerramento do curso e poder, portanto, me sentir mais preparada para este novo desafio. Ele me dizia: “É claro que, se algo uma vaga no ramo aparecer, você vai participar do processo de seleção e, se tudo der certo, aceitará o emprego.” Ele era um querido comigo, sempre, desde o começo, 7 anos atrás, quando nos conhecemos.

Eu era a garota-propaganda de um comercial de margarina: tudo parecia perfeito ao meu redor… e era, exceto por um hábito um pouco complicado que desenvolvi logo que me mudei para a casa nova: observar o meu vizinho. Pecadora, confesso, ficava a observá-lo da janela. O rapaz tinha aproximadamente a minha idade, era todo tatuado. O descobri numa destas tardes de tédio, sem querer. A janela do meu quarto era um nível acima à do quarto dele. Um dia, pensando na vida e olhando para o nada, notei que, de repente, ele parava ali, para escutar uma música, fumar um cigarro, olhar para baixo e observar seu cachorro, um belíssimo golden de nome Spot.

Ficou ainda mais interessante quando percebi que ele jamais olhava para cima. Pois ele podia ser exatamenteo que era, sem se preocupar se alguém o observava, se alguém o julgava. E algumas vezes o via em cada situação que eram, no mínimo, cômicas: a guitarra imaginária, o controle remoto feito de microfone… eu estava diante de um verdadeiro rock star do mundo de faz de conta. Obviamente não foram estas as cenas que me prenderam ao meu vizinho.

Eu vi ali um homem decidido, sem os menores dos temores, pisando seguro, ficando nu, tirando a roupa e a jogando no chão de qualquer maneira. E então o meu problema começou, porque eu sempre dava o meu jeito de apreciar esta cena da minha janela. Era algo hipnótico, impossível de resistir. O corpo dele era lindo! Eu imaginava que ele fosse tatuado apenas em seu braço esquerdo, e descobri um homem que realmente apreciava se tatuar. Tudo era lindo demais de se ver, algo difícil de descrever. Se eu sentia tesão por ele? Não sei. Mas era tentador demais ficar ali, esperando até que ele voltasse para se vestir, passar um perfume, gel no cabelo e sair do quarto – momento em que eu, então, voltava à minha rotina do tédio.

Numa tarde dessas em que eu estava me preparando para me encontrar com meus livros, ouvi Janis Joplin cantando alto, sons de guitarra saindo do quarto dele. O coração disparou, comecei a suar e fui me posicionar na janela. E então eu vi que ele não tinha pressa. Estava calor e ele estava ali para ouvir um rock – nu. Fiquei ali olhando cada contorno do seu corpo, cada arte na sua pele. Me perdi a observar o formato de suas coxas, admirei o seu sexo. Maldito, ele não levantava da cama. E eu não conseguia sair da janela. Oras, eu tinha que rever uma matéria da faculdade e o gostosão ali, nu, me atrapalhando. Bom, esse era o preço que eu pagava por fugir do tédio em raras horas. De repente, o que eu não esperava aconteceu: ele me flagrou. Olhou para cima e lá estava eu a observá-lo. Nos encaramos por um segundo longo. Percebi ali um homem que não se deixava intimidar. Ele viu em mim uma mulher que não ficou sem graça. Ele acenou e respondi a seu cumprimento. Ele continuou ali, lindo e nu sobre a cama, e eu aqui, na minha janela. Por pouco tempo, pois ele se levantou para o ritual do banho, e segui, contrariada, para minhas tarefas. Isso foi na semana passada.

Pedro me notou, neste final de semana, parada na janela. Me abraçou com seu abraço de urso que sempre me fazia sentir segura e perguntou o que se passava pela minha cabeça.

– Amor, eu estive reparando que, daqui, podemos ver um pouco da casa dos nossos vizinhos. Acho que isso não é muito agradável, pois não sei exatamente o que eles podem ver da nossa casa. O que você acha de colocarmos um insulfilm na janela?

Ele me beijou na testa. “Como é zelosa essa minha esposa! Segunda-Feira solicitarei um orçamento. Não se preocupe!”

Estou aqui, em frente à janela. Do outro lado, tudo fechado. Pelo menos agora eu tenho certeza de que não serei flagrada por ele novamente.

Um pensamento sobre “Cheia de zêlo

  1. Adorei!!!
    A maneira como vc o descreve… consigo imaginá-lo…
    Que homem! Não se deixa intimidar, mesmo estando sem roupas…
    É esse merece ser observado…
    rsrsrsrsrs

    Beijos!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s